terça-feira, 16 de novembro de 2010

передумать

Começou há meses. Não andava lá muito bem, mas nada prenunciava o que viria a acontecer. Admito que minhas desventuras amorosas com um homem casado contribuíram para que eu me sentisse bem pouco especial. E que a perspectiva do desemprego não colaborou para diminuir a sensação de vertigem que me acompanhava há muito. Também não seria justo negar a outros acontecimentos desastrosos sua importância em meu tímido desespero. Mas juro - e nisso peço que dêem a mim o mínimo crédito de quem viveu de perto a experiência e foi pega de surpresa - que nada em mim engendrava os acontecimentos que se seguiram. Se foi algo de fora que me invadiu, ou uma configuração específica dos astros que provocou em mim sentimentos de outro modo inexplicáveis, ou ainda se o que trazemos dentro de nós cresce em potência inovadora e imprevisível, não sei. Buscar a causa parece, hoje, apenas arrogância. Narrar, porém, soa bem. Necessário porque grita em mim algo que não se ouve. Que ao menos seja possível ler...
Acordei de madrugada com o rosto regado. O ácido das lágrimas começara a irritar minha pele. Chorava. Volumosamente. Sem entender o motivo e sem conseguir parar. Estava como que paralisada, fora de mim, vendo-me chorar. Passei cerca de uma hora assim. Não conseguia pensar em nada, tampouco mover um só músculo. E as águas corriam de meus olhos, apagando as marcas das lágrimas já secas. Com o tempo, quando a sede já acenava o esgotamento do chorar, meus movimentos voltaram. Consegui levantar e me vestir. Lavei o rosto na esperança de que a confusão dos líquidos diminuisse a intensidade do choro. Mas lágrima é lágrima, ainda que diluída.
Saí. Desci para a rua, incontestavelmente fria, ainda que em pleno verão. Toda madrugada chorosa é fria, mesmo se o termômetro marcar 27 graus - eis algo que nos deviam ensinar na escola. Além do mais, se o corpo chora, não sua.
Caminhando, quase incorri no absurdo de pensar que a rua estava vazia. E não falo aqui de um simples recurso lógico afirmativo de minha própria presença como suficiente para considerar que alguém lá estava. Se eu estivesse só no frio gris do asfalto, a rua estaria de fato vazia. Naquele momento, eu não me bastava para existir. Apenas a tosse e os resmungos de alguns moradores de rua garantiam minha presença.
Andei e chorei por algum tempo, em espetáculo que se fazia triste não tanto pelo drama do descontrole, mas sim pelo ridículo do exagero, pelo burlesco despropósito. Há algo de cômico em todo sofrer.
Passando perto de um viaduto onde antes havia um abrigo, notei um homem muito velho, que certamente não tinha mais de 60 anos. Estava encostado à cerca do viaduto, sentado sobre sua casa de papelão, jogando concentrado uma bolinha fisioterapêutica para o alto, recolhendo-a ágil e intercalando as jogadas com uma tragada no cigarro ainda apagado.
Voltei. Dormi. Amanheci normalmente.
Na noite seguinte, a cena se repete. Não. Toda tentativa de repetição é uma farsa. A cena não se repete, mas outra cena se dá, tomando algo emprestado da anterior, nesse truque genial da consciência em nos fazer crer que as coisas se seguem umas às outras.
Acordo chorando estática. Vou à rua. Vejo o homem jovem de 60 anos. Chego mais perto. O único som que sai de seus lábios é um sibilo que se pretende assobio. Nada diz. Talvez devesse. Acompanho com o olhar o movimento da bolinha. A bolinha desaparece na mão do homem. Cigarro. Dessa vez aceso. Volto. Durmo. Amanheço ainda com capacidade de responder "tudo" quando me perguntam "tudo bem?".
As madrugadas na rua começam a parecer rotina, estado de presentidade, impossível de contar marcando tempo.
Choro acordando parada. Rua. Bolinha que some. Cigarro na mão. Olho. Vejo o olho do homem à distância. Só o direito. O esquerdo fica à sombra. Parece uma bolinha de plástico fosco enfiada num monte de carne. As rugas do corpo todo se concentram nos olhos do homem. Olhos muito velhos. Ele força a vista para não perder a bolinha.
Mais uma vez. Déjà-vu de soslaio. Bolinha e cigarro e bolinha e cigarro. Aceso.
Começo a me acostumar com o cheiro de urina do velho. Ele nunca reputa à minha presença importância maior do que à das pombas. Eu, quase em estado de transe, luto para sentir-me presente. Sinto que ele está ali por algum motivo. E esse motivo sou eu. Procuro em seus gestos a resposta ao meu desconforto. Imagino diálogos possíveis com esse meu novo guru em voto de silêncio. Calculo que em algum instante infinitesimal entre a bolinha e o cigarro está a chave para o mundo. Passo a atribuir às rugas ao redor dos olhos a sabedoria dos séculos.
De repente, ele diz dentro de minha cabeça: "você precisa botar seu sofrimento para funcionar em horário comercial". No minuto seguinte, estou sentada no chão do meu quarto, escrevendo ensandecida. Era isso. Eu ia transformar meu sofrimento em produto consumível! Quase babo de tanto prazer. Amanheço rindo. O lirismo do desespero sem causa é rizível. Jogo fora os papéis.
De madrugada, de novo o outro dissimulado de mesmo. Choro de corpo estático. De novo o homem. Dessa vez imagino outros diálogos impossíveis. O homem continua quieto, e no hiato de silêncio eu preencho o vazio necessário do desconhecimento sobre si com conselhos inúteis. Passo a segui-los dia após dia. Como receitas. Chego mesmo em certa ocasião, pensando agir sob ordem do velho, a colher de meu rosto as lágrimas, colocá-las em uma xícara e sorvê-las enquanto medito acerca da complexidade do universo.
Aquele homem se transforma em meu confidente, sem que entre nós uma palavra seja trocada em aberto. Tudo o que nele cala diz em mim. Nossas conversas imaginárias ditam meus passos. E nada funciona. Nada funciona.
Até que, no mesmo repente do começo, minhas madrugadas deslocadas cessam. Esqueço o homem.
Ontem, no entanto, vou ao teatro com amigos. Amigos falantes, estes. A peça, turbilhão onírico, memorioso e fatídico. Uma mistura bastante perturbadora. A história não me comove tanto quanto deveria. Fixo os olhos do ator. Já bastante enrugados para um homem jovem. Meu corpo começa a formigar. Sinto o comichão de uma lembrança rompendo membranas para chegar à superfície.
Ao fim da peça, a cara amarrotada de todos justifica minha tensão. Escondo que meu desconforto é outro. Finjo estar abalada pela peça, sem mal ter prestado atenção às falas. Saio depressa.
Chego em casa, durmo com certo custo. Acordo, dessa vez em choro extático nada parado. Parecia epifânico. Sinto-me tão para fora que eu e o mundo somos o mesmo. E para fora eu vou.
Na rua, o velho. A bolinha é agora só um farrapo. Sento-me ao seu lado. Abraço-o, com saudades intensas de seu cheiro ruim. Ele continua a jogar a que um dia fora bolinha e tragar o cigarro, sem alterar o ritmo. Sei que sou obrigada a agradecer àquele homem por jamais ter dito a mim sequer uma palavra. Agradecer por não ter atendido àquele ser demandante que eu havia sido. Eu demandante, ele pedinte? Não sei... Agradecê-lo por não ser símile, por ter sido o que é: outro.
Digo, ainda sentada, tranquila, "eu amo você". E essas palavras nunca me soaram tão verdadeiras. O outro só nos permite ser amado naquilo que possui de mais imperscrutável. E o homem estende para mim um pedaço do cobertor velho e fétido. Ficamos assim por alguns minutos. Levanto, renovada. Vou embora.
À porta, busco no bolso a chave de casa. Vejo que ali faltam 10 reais. Fui roubada. E eu o amo.





Esse aí já foi um email enviado a amigos quando tive vontade de explicar minha repentina fuga após uma peça de teatro. Hoje deve ser outra coisa...

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