quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Só terra
terça-feira, 16 de novembro de 2010
передумать
domingo, 24 de outubro de 2010
Fragmento de sonho de luto nº 1
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Chá das cinco
Um longo suspiro...
Uma falta de monólogo nunca pronunciada
Um longo suspiro...
O olhar perdido, a não-voz beckettiana. Nada. Absolutamente nada. Nem mesmo o horror inexprimível! Vazio sem fim. Sem narrador, sem ouvinte, sem história. Nada. Nem mesmo o horror inexprimível. Nada de luz, mas sem trevas. Nada, realmente. Nem mesmo o horror inexprimível... Visão, nenhuma. Nada que faça sentido. Nonsense ausente. Nada. Nem mesmo o horror inexprimível? Impossível qualquer afirmação que se possa negar. Menos ainda do que o nada.
Um longo suspiro... Não! Nada! Nem mesmo o horror inexprimível? Nem mesmo o horror inexprimível... Nem mesmo o horror inexprimível. Nem mesmo o horror inexprimível!
Nem mesmo o horror, nem mesmo, nem o mesmo, nem nada!
Um último longo suspiro, vazio, agora. Só o tempo... Nem mais o tempo.
Nada. Nada até encontrar um porto... Não! Nada. Nada até o horror inexprimível. Alcança o horror! Agarra-se ao horror! Nada e se apega ao horror! Fica
Silêncio... Não! Nada! Nada que se possa dizer... Nada! Sem consciência, sem inconsciente ou o que quer que seja. Nada. Sem inexistência, sem nada. Nem mesmo o horror inexprimível.
Curto suspiro, mentiroso... Nada! Nem vida, nem morte, nem sobrevida. Coisa outra, não inexprimível... Apenas nada! Nem mais a palavra... Nem o direito ao fim... Nem suspensão de juízo. Nem fluxo verbal interrompido... Nada!
Suspirado em "A piece of monologue" e na existência de Beckett. Só porque às vezes dá vontade de resgatar textos da época de adolescência.
Desabafo à la AmPm
Os ombros de tantas blusas manchados pelas suas lágrimas. Noites em claro para pretenciosamente tentar conter sua dor com meu abraço, mesmo me conhecendo insuficiente. E um dia nos dissemos irmãos que se escolheram.
Um dia outro qualquer, meu celular pulsa com notícias suas depois de muito tempo. Depois de muitas costas viradas a mim. Lá estava, com a crueza das letras minúsculas, que roubam ao dito qualquer substância: amizade é conveniência. e convivência. só.
Chorei, é verdade. Mas seu ombro não estava lá para que eu pudesse manchá-lo. Havia outros, claro. O seu, não.
Pensei em chamá-lo ingrato, mas isso você nunca foi.
Pensei em chamá-lo injusto, mas tampouco isso se adequava.
Pensei então que era culpa minha, que a razão era sua.
Pedi perdão, desci do pedestal do orgulho. Você subiu um degrau mais.
Riu. Riu, dizendo que foi tolice, raiva passageira. Deu-me um abracinho displicente e um sorrisinho amarelo. Não os reconheci como seus. Acabei por aceitar.
Eu, sem explicações, sem desculpas, silenciei. Algo em mim morreu.
Não que pensasse ter sido falso o que vivi antes. Sei que não.
É só que... Perdoa-me a estupidez, mas amigos não são aqueles a quem damos o direito de ser inconvenientes?
Pode chamar de discordância de conceitos, amigo. Só sei que sinto falta da sua inconveniência.
Passarei a procurá-lo nos postos de gasolina.
Uns pés perdidos

Uns pés, no chão. Já no sábado, mal amanhecido, assim amanheceu. Pés sem dono, pés sem pernas, pés sem corpo, pés só pés. No caminho. Pé obstáculo. Pé empecilho. Pé apenas, a duras penas, penas pesadas, perenes. Pé ignorado, invisível. Pé pedinte, desejante. Pé vivamente morto, inertemente vívido, intensamente vivido. Pé pensante, questionador. Pé perigo, desconfortante, em denúncia. Em que pé está a situação, perguntam. Há quem responda que está no esquerdo. Eu digo que está nesses pés. Os pés não vistos. Olhados, mas não vistos. Como pode mentir assim o olho?! Todos olharam os pés, mas ninguém os viu. Todo pé tem rosto, feição, face. Um corpo inteiro, de fato, carne como a minha. Mas não! Eram só uns pés no chão... Dá-se-lhe as costas. Corpo hipócrita. Pensamentos sem pé nem cabeça! Queria eu ser um tanto mais pé-no-chão...
