quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Só terra

E essa maldita ampulheta a confirmar que o tempo escorre e nos soterra...
Ampulheta pequena, de imagem e ação. Mas usávamos no jogo da vida, em versão nossa, tão secreta.
O médico disse um dia, sério até os pêlos da orelha: seis meses, um ano quando muito.
Parecia que viradas incontáveis da ampulheta viriam. Haveria nas reviravoltas um tempo para construirmos juntos.
A areia era pouca para castelos. Nada, no entanto, importava a mim, que nunca tivera pendores de princesa.
Jogamos tudo. Máscaras, esconderijos, tudo fora. Você conhecia todos os movimentos meus, mas fingia ignorar, só pelo prazer de me ver sorrir com nariz de imprevisível.
Nunca deixamos a sorte aos dados. Talvez devêssemos. Eles continuam bem trancados na caixa sob a cama.
De impolutas damas, sisudos detetives e russas roletas se fizeram nossos dias. Foi nossa quase infância de novo, ou não. Aqueles fins de semana chuvosos em que do aborrecido de ficar em casa emergia o gosto da fantasia, da brincadeira.
Com a vida não se brinca, diziam os mais velhos. Não fazíamos caso desses ditos gastos.
E brincávamos e jogávamos, tão verdadeiramente que o lúdico nos tomou o lugar da vida.
Mal víamos que a ampulheta infernal corria, alargando seus espaços e nos encolhendo a respiração.
Disseram um dia que eletricidade transforma areia em vidro. Rimos. Não acreditei.
Um dia veio o choque, e meu tempo parou, vítreo. O seu havia findado, aéreo.
Xeque-mate. Essa me passou invisível.
Sem cartas na manga, joguei a toalha. Pedi tempo. Por que não fiz isso antes?
Tentei me esconder. Alguém sempre me achava. Só eu não conseguia me encontrar.
Enquanto houver jogos nossos a serem completados, vou seguir jogando. Ninguém mais conhece meus blefes. Posso ganhar. Mesmo com a ampulheta sem areia.
...
...
...
Pode soar como quiz show, mas não é:
Eu... só queria saber como está pra você embaixo da terra.






Só pra lembrar que desde que você partiu eu perdi meu grande parceiro nessa loucura de vida.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

передумать

Começou há meses. Não andava lá muito bem, mas nada prenunciava o que viria a acontecer. Admito que minhas desventuras amorosas com um homem casado contribuíram para que eu me sentisse bem pouco especial. E que a perspectiva do desemprego não colaborou para diminuir a sensação de vertigem que me acompanhava há muito. Também não seria justo negar a outros acontecimentos desastrosos sua importância em meu tímido desespero. Mas juro - e nisso peço que dêem a mim o mínimo crédito de quem viveu de perto a experiência e foi pega de surpresa - que nada em mim engendrava os acontecimentos que se seguiram. Se foi algo de fora que me invadiu, ou uma configuração específica dos astros que provocou em mim sentimentos de outro modo inexplicáveis, ou ainda se o que trazemos dentro de nós cresce em potência inovadora e imprevisível, não sei. Buscar a causa parece, hoje, apenas arrogância. Narrar, porém, soa bem. Necessário porque grita em mim algo que não se ouve. Que ao menos seja possível ler...
Acordei de madrugada com o rosto regado. O ácido das lágrimas começara a irritar minha pele. Chorava. Volumosamente. Sem entender o motivo e sem conseguir parar. Estava como que paralisada, fora de mim, vendo-me chorar. Passei cerca de uma hora assim. Não conseguia pensar em nada, tampouco mover um só músculo. E as águas corriam de meus olhos, apagando as marcas das lágrimas já secas. Com o tempo, quando a sede já acenava o esgotamento do chorar, meus movimentos voltaram. Consegui levantar e me vestir. Lavei o rosto na esperança de que a confusão dos líquidos diminuisse a intensidade do choro. Mas lágrima é lágrima, ainda que diluída.
Saí. Desci para a rua, incontestavelmente fria, ainda que em pleno verão. Toda madrugada chorosa é fria, mesmo se o termômetro marcar 27 graus - eis algo que nos deviam ensinar na escola. Além do mais, se o corpo chora, não sua.
Caminhando, quase incorri no absurdo de pensar que a rua estava vazia. E não falo aqui de um simples recurso lógico afirmativo de minha própria presença como suficiente para considerar que alguém lá estava. Se eu estivesse só no frio gris do asfalto, a rua estaria de fato vazia. Naquele momento, eu não me bastava para existir. Apenas a tosse e os resmungos de alguns moradores de rua garantiam minha presença.
Andei e chorei por algum tempo, em espetáculo que se fazia triste não tanto pelo drama do descontrole, mas sim pelo ridículo do exagero, pelo burlesco despropósito. Há algo de cômico em todo sofrer.
Passando perto de um viaduto onde antes havia um abrigo, notei um homem muito velho, que certamente não tinha mais de 60 anos. Estava encostado à cerca do viaduto, sentado sobre sua casa de papelão, jogando concentrado uma bolinha fisioterapêutica para o alto, recolhendo-a ágil e intercalando as jogadas com uma tragada no cigarro ainda apagado.
Voltei. Dormi. Amanheci normalmente.
Na noite seguinte, a cena se repete. Não. Toda tentativa de repetição é uma farsa. A cena não se repete, mas outra cena se dá, tomando algo emprestado da anterior, nesse truque genial da consciência em nos fazer crer que as coisas se seguem umas às outras.
Acordo chorando estática. Vou à rua. Vejo o homem jovem de 60 anos. Chego mais perto. O único som que sai de seus lábios é um sibilo que se pretende assobio. Nada diz. Talvez devesse. Acompanho com o olhar o movimento da bolinha. A bolinha desaparece na mão do homem. Cigarro. Dessa vez aceso. Volto. Durmo. Amanheço ainda com capacidade de responder "tudo" quando me perguntam "tudo bem?".
As madrugadas na rua começam a parecer rotina, estado de presentidade, impossível de contar marcando tempo.
Choro acordando parada. Rua. Bolinha que some. Cigarro na mão. Olho. Vejo o olho do homem à distância. Só o direito. O esquerdo fica à sombra. Parece uma bolinha de plástico fosco enfiada num monte de carne. As rugas do corpo todo se concentram nos olhos do homem. Olhos muito velhos. Ele força a vista para não perder a bolinha.
Mais uma vez. Déjà-vu de soslaio. Bolinha e cigarro e bolinha e cigarro. Aceso.
Começo a me acostumar com o cheiro de urina do velho. Ele nunca reputa à minha presença importância maior do que à das pombas. Eu, quase em estado de transe, luto para sentir-me presente. Sinto que ele está ali por algum motivo. E esse motivo sou eu. Procuro em seus gestos a resposta ao meu desconforto. Imagino diálogos possíveis com esse meu novo guru em voto de silêncio. Calculo que em algum instante infinitesimal entre a bolinha e o cigarro está a chave para o mundo. Passo a atribuir às rugas ao redor dos olhos a sabedoria dos séculos.
De repente, ele diz dentro de minha cabeça: "você precisa botar seu sofrimento para funcionar em horário comercial". No minuto seguinte, estou sentada no chão do meu quarto, escrevendo ensandecida. Era isso. Eu ia transformar meu sofrimento em produto consumível! Quase babo de tanto prazer. Amanheço rindo. O lirismo do desespero sem causa é rizível. Jogo fora os papéis.
De madrugada, de novo o outro dissimulado de mesmo. Choro de corpo estático. De novo o homem. Dessa vez imagino outros diálogos impossíveis. O homem continua quieto, e no hiato de silêncio eu preencho o vazio necessário do desconhecimento sobre si com conselhos inúteis. Passo a segui-los dia após dia. Como receitas. Chego mesmo em certa ocasião, pensando agir sob ordem do velho, a colher de meu rosto as lágrimas, colocá-las em uma xícara e sorvê-las enquanto medito acerca da complexidade do universo.
Aquele homem se transforma em meu confidente, sem que entre nós uma palavra seja trocada em aberto. Tudo o que nele cala diz em mim. Nossas conversas imaginárias ditam meus passos. E nada funciona. Nada funciona.
Até que, no mesmo repente do começo, minhas madrugadas deslocadas cessam. Esqueço o homem.
Ontem, no entanto, vou ao teatro com amigos. Amigos falantes, estes. A peça, turbilhão onírico, memorioso e fatídico. Uma mistura bastante perturbadora. A história não me comove tanto quanto deveria. Fixo os olhos do ator. Já bastante enrugados para um homem jovem. Meu corpo começa a formigar. Sinto o comichão de uma lembrança rompendo membranas para chegar à superfície.
Ao fim da peça, a cara amarrotada de todos justifica minha tensão. Escondo que meu desconforto é outro. Finjo estar abalada pela peça, sem mal ter prestado atenção às falas. Saio depressa.
Chego em casa, durmo com certo custo. Acordo, dessa vez em choro extático nada parado. Parecia epifânico. Sinto-me tão para fora que eu e o mundo somos o mesmo. E para fora eu vou.
Na rua, o velho. A bolinha é agora só um farrapo. Sento-me ao seu lado. Abraço-o, com saudades intensas de seu cheiro ruim. Ele continua a jogar a que um dia fora bolinha e tragar o cigarro, sem alterar o ritmo. Sei que sou obrigada a agradecer àquele homem por jamais ter dito a mim sequer uma palavra. Agradecer por não ter atendido àquele ser demandante que eu havia sido. Eu demandante, ele pedinte? Não sei... Agradecê-lo por não ser símile, por ter sido o que é: outro.
Digo, ainda sentada, tranquila, "eu amo você". E essas palavras nunca me soaram tão verdadeiras. O outro só nos permite ser amado naquilo que possui de mais imperscrutável. E o homem estende para mim um pedaço do cobertor velho e fétido. Ficamos assim por alguns minutos. Levanto, renovada. Vou embora.
À porta, busco no bolso a chave de casa. Vejo que ali faltam 10 reais. Fui roubada. E eu o amo.





Esse aí já foi um email enviado a amigos quando tive vontade de explicar minha repentina fuga após uma peça de teatro. Hoje deve ser outra coisa...

domingo, 24 de outubro de 2010

Fragmento de sonho de luto nº 1

Todos reunidos para o one night only, ávidos. Os olhos sedentos por vidas em invisíveis fios sustentadas. Um pouco marionete, um tanto acrobata, um nada ilusionista, ele ensaia mentalmente o número para que pareça improviso.

No circo sem lona, nunca se sabe quando ocorrem os números. A alguns lhes apetece vigiar um artista só, por tempos infindos, de modo a garantir que aquele show não perderão. Esses costumam padecer seriamente de fixidez. Seus pescoços se alongam demasiado e os olhos avermelham do enorme esforço de não piscar. Deles zombam os outros, mais agitados, que buscam o maior número de atrações possível. Olham e correm em desespero a todo lado, buscando abarcar o mundo. Suas orelhas são grandes e o pescoço meio engolido pelos ombros, em constante frisson. Há ainda um terceiro tipo, que critica cabisbaixo os dois primeiros, dizendo ser tolice pensar que é possível captar a totalidade tanto do tempo quanto do espaço. Destes, no entanto, apenas se ouve falar.

Todos se pensam espectadores. Ninguém entende que faz também parte do show, até o momento dos aplausos - ou vaias. Quando segue o silêncio, segue o suspense. Todos são artistas em potencial.

O marionete-acrobata-ilusionista sem saber cansa de olhar. Corta os fios que já não via. Salta. Todos prendem a respiração. Magnífico. Um - dois - três giros no ar. E a violenta pancada vermelha no chão. Performance de Zubrod.




Sinto muito se a linguagem parece mal trabalhada... O esforço emocional já foi suficiente.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Chá das cinco

Un chat, à las cinq, agile...
Moi, je me regarde trop le nombril,
Par habitude ou par paresse.

Avide, ma moustache je caresse.
Le chat, languide, saute du mur.
La vie est courte, trop dure!

Si je les avais sept, au moins...
Mais non, mon caveau sera mon témoin.
Pourra donc le chat me regarder avec ses yeux?

Ma pierre tombale: il aurait dû être ambitieux.
Le chat saute; sa moustache n'est pas la mienne.
Moi, je ne sais que vivre une vie de chienne.

Mais il faut arrêter de penser, alors...
N'a rien a dire, le monde dehors.
Un chat, à las cinq, n'est qu'un chat.

-Ma'am, please bring me some tea. No milk. Enough mammals for today.




Escrito às cinco, em cinco minutos, enquanto conversava com meu quinto amigo francês, de 55 anos. Mas não gosto de numerologia.

Um longo suspiro...

Precisa de muitas claras.
Em neve.

Uma falta de monólogo nunca pronunciada

Um longo suspiro...

O olhar perdido, a não-voz beckettiana. Nada. Absolutamente nada. Nem mesmo o horror inexprimível! Vazio sem fim. Sem narrador, sem ouvinte, sem história. Nada. Nem mesmo o horror inexprimível. Nada de luz, mas sem trevas. Nada, realmente. Nem mesmo o horror inexprimível... Visão, nenhuma. Nada que faça sentido. Nonsense ausente. Nada. Nem mesmo o horror inexprimível? Impossível qualquer afirmação que se possa negar. Menos ainda do que o nada.

Um longo suspiro... Não! Nada! Nem mesmo o horror inexprimível? Nem mesmo o horror inexprimível... Nem mesmo o horror inexprimível. Nem mesmo o horror inexprimível!

Nem mesmo o horror, nem mesmo, nem o mesmo, nem nada!

Um último longo suspiro, vazio, agora. Só o tempo... Nem mais o tempo.

Nada. Nada até encontrar um porto... Não! Nada. Nada até o horror inexprimível. Alcança o horror! Agarra-se ao horror! Nada e se apega ao horror! Fica em silêncio... Olha em volta... Nada. Algo: o horror inexprimível. Antes o horror inexprimível do que o nada. Antes calar-se por falta de palavras possíveis de expressar o horror. Medo do nada! Medo de ser silenciado! Grita! Nada... O horror inexprimível se esvai...

Silêncio... Não! Nada! Nada que se possa dizer... Nada! Sem consciência, sem inconsciente ou o que quer que seja. Nada. Sem inexistência, sem nada. Nem mesmo o horror inexprimível.

Curto suspiro, mentiroso... Nada! Nem vida, nem morte, nem sobrevida. Coisa outra, não inexprimível... Apenas nada! Nem mais a palavra... Nem o direito ao fim... Nem suspensão de juízo. Nem fluxo verbal interrompido... Nada!




Suspirado em "A piece of monologue" e na existência de Beckett. Só porque às vezes dá vontade de resgatar textos da época de adolescência.

Lemniscata (ou Rondó sensual-canibalístico de Bernoulli)

Desabafo à la AmPm

Os ombros de tantas blusas manchados pelas suas lágrimas. Noites em claro para pretenciosamente tentar conter sua dor com meu abraço, mesmo me conhecendo insuficiente. E um dia nos dissemos irmãos que se escolheram.

Um dia outro qualquer, meu celular pulsa com notícias suas depois de muito tempo. Depois de muitas costas viradas a mim. Lá estava, com a crueza das letras minúsculas, que roubam ao dito qualquer substância: amizade é conveniência. e convivência. só.

Chorei, é verdade. Mas seu ombro não estava lá para que eu pudesse manchá-lo. Havia outros, claro. O seu, não.

Pensei em chamá-lo ingrato, mas isso você nunca foi.

Pensei em chamá-lo injusto, mas tampouco isso se adequava.

Pensei então que era culpa minha, que a razão era sua.

Pedi perdão, desci do pedestal do orgulho. Você subiu um degrau mais.

Riu. Riu, dizendo que foi tolice, raiva passageira. Deu-me um abracinho displicente e um sorrisinho amarelo. Não os reconheci como seus. Acabei por aceitar.

Eu, sem explicações, sem desculpas, silenciei. Algo em mim morreu.

Não que pensasse ter sido falso o que vivi antes. Sei que não.

É só que... Perdoa-me a estupidez, mas amigos não são aqueles a quem damos o direito de ser inconvenientes?

Pode chamar de discordância de conceitos, amigo. Só sei que sinto falta da sua inconveniência.

Passarei a procurá-lo nos postos de gasolina.

Uns pés perdidos


Uns pés, no chão. Já no sábado, mal amanhecido, assim amanheceu. Pés sem dono, pés sem pernas, pés sem corpo, pés só pés. No caminho. Pé obstáculo. Pé empecilho. Pé apenas, a duras penas, penas pesadas, perenes. Pé ignorado, invisível. Pé pedinte, desejante. Pé vivamente morto, inertemente vívido, intensamente vivido. Pé pensante, questionador. Pé perigo, desconfortante, em denúncia. Em que pé está a situação, perguntam. Há quem responda que está no esquerdo. Eu digo que está nesses pés. Os pés não vistos. Olhados, mas não vistos. Como pode mentir assim o olho?! Todos olharam os pés, mas ninguém os viu. Todo pé tem rosto, feição, face. Um corpo inteiro, de fato, carne como a minha. Mas não! Eram só uns pés no chão... Dá-se-lhe as costas. Corpo hipócrita. Pensamentos sem pé nem cabeça! Queria eu ser um tanto mais pé-no-chão...

Nem tudo o que existe um dia estreou

Escrever, assim como viver, não é preciso. Muito menos necessário. Mas às vezes, por descuido, palavras aparecem. Resolvi penalizar meus descuidos escrevendo um blog. Por que não? De penas e apenas serão feitas as postagens. Ou não. Isso é só um texto introdutório para fazer pensar que há mais mistérios entre os bits dessa página do que sonha nossa vaga cibernética. Não há. Mas faça bom proveito mesmo assim. Eu farei.