quarta-feira, 28 de julho de 2010

Chá das cinco

Un chat, à las cinq, agile...
Moi, je me regarde trop le nombril,
Par habitude ou par paresse.

Avide, ma moustache je caresse.
Le chat, languide, saute du mur.
La vie est courte, trop dure!

Si je les avais sept, au moins...
Mais non, mon caveau sera mon témoin.
Pourra donc le chat me regarder avec ses yeux?

Ma pierre tombale: il aurait dû être ambitieux.
Le chat saute; sa moustache n'est pas la mienne.
Moi, je ne sais que vivre une vie de chienne.

Mais il faut arrêter de penser, alors...
N'a rien a dire, le monde dehors.
Un chat, à las cinq, n'est qu'un chat.

-Ma'am, please bring me some tea. No milk. Enough mammals for today.




Escrito às cinco, em cinco minutos, enquanto conversava com meu quinto amigo francês, de 55 anos. Mas não gosto de numerologia.

Um longo suspiro...

Precisa de muitas claras.
Em neve.

Uma falta de monólogo nunca pronunciada

Um longo suspiro...

O olhar perdido, a não-voz beckettiana. Nada. Absolutamente nada. Nem mesmo o horror inexprimível! Vazio sem fim. Sem narrador, sem ouvinte, sem história. Nada. Nem mesmo o horror inexprimível. Nada de luz, mas sem trevas. Nada, realmente. Nem mesmo o horror inexprimível... Visão, nenhuma. Nada que faça sentido. Nonsense ausente. Nada. Nem mesmo o horror inexprimível? Impossível qualquer afirmação que se possa negar. Menos ainda do que o nada.

Um longo suspiro... Não! Nada! Nem mesmo o horror inexprimível? Nem mesmo o horror inexprimível... Nem mesmo o horror inexprimível. Nem mesmo o horror inexprimível!

Nem mesmo o horror, nem mesmo, nem o mesmo, nem nada!

Um último longo suspiro, vazio, agora. Só o tempo... Nem mais o tempo.

Nada. Nada até encontrar um porto... Não! Nada. Nada até o horror inexprimível. Alcança o horror! Agarra-se ao horror! Nada e se apega ao horror! Fica em silêncio... Olha em volta... Nada. Algo: o horror inexprimível. Antes o horror inexprimível do que o nada. Antes calar-se por falta de palavras possíveis de expressar o horror. Medo do nada! Medo de ser silenciado! Grita! Nada... O horror inexprimível se esvai...

Silêncio... Não! Nada! Nada que se possa dizer... Nada! Sem consciência, sem inconsciente ou o que quer que seja. Nada. Sem inexistência, sem nada. Nem mesmo o horror inexprimível.

Curto suspiro, mentiroso... Nada! Nem vida, nem morte, nem sobrevida. Coisa outra, não inexprimível... Apenas nada! Nem mais a palavra... Nem o direito ao fim... Nem suspensão de juízo. Nem fluxo verbal interrompido... Nada!




Suspirado em "A piece of monologue" e na existência de Beckett. Só porque às vezes dá vontade de resgatar textos da época de adolescência.

Lemniscata (ou Rondó sensual-canibalístico de Bernoulli)

Desabafo à la AmPm

Os ombros de tantas blusas manchados pelas suas lágrimas. Noites em claro para pretenciosamente tentar conter sua dor com meu abraço, mesmo me conhecendo insuficiente. E um dia nos dissemos irmãos que se escolheram.

Um dia outro qualquer, meu celular pulsa com notícias suas depois de muito tempo. Depois de muitas costas viradas a mim. Lá estava, com a crueza das letras minúsculas, que roubam ao dito qualquer substância: amizade é conveniência. e convivência. só.

Chorei, é verdade. Mas seu ombro não estava lá para que eu pudesse manchá-lo. Havia outros, claro. O seu, não.

Pensei em chamá-lo ingrato, mas isso você nunca foi.

Pensei em chamá-lo injusto, mas tampouco isso se adequava.

Pensei então que era culpa minha, que a razão era sua.

Pedi perdão, desci do pedestal do orgulho. Você subiu um degrau mais.

Riu. Riu, dizendo que foi tolice, raiva passageira. Deu-me um abracinho displicente e um sorrisinho amarelo. Não os reconheci como seus. Acabei por aceitar.

Eu, sem explicações, sem desculpas, silenciei. Algo em mim morreu.

Não que pensasse ter sido falso o que vivi antes. Sei que não.

É só que... Perdoa-me a estupidez, mas amigos não são aqueles a quem damos o direito de ser inconvenientes?

Pode chamar de discordância de conceitos, amigo. Só sei que sinto falta da sua inconveniência.

Passarei a procurá-lo nos postos de gasolina.

Uns pés perdidos


Uns pés, no chão. Já no sábado, mal amanhecido, assim amanheceu. Pés sem dono, pés sem pernas, pés sem corpo, pés só pés. No caminho. Pé obstáculo. Pé empecilho. Pé apenas, a duras penas, penas pesadas, perenes. Pé ignorado, invisível. Pé pedinte, desejante. Pé vivamente morto, inertemente vívido, intensamente vivido. Pé pensante, questionador. Pé perigo, desconfortante, em denúncia. Em que pé está a situação, perguntam. Há quem responda que está no esquerdo. Eu digo que está nesses pés. Os pés não vistos. Olhados, mas não vistos. Como pode mentir assim o olho?! Todos olharam os pés, mas ninguém os viu. Todo pé tem rosto, feição, face. Um corpo inteiro, de fato, carne como a minha. Mas não! Eram só uns pés no chão... Dá-se-lhe as costas. Corpo hipócrita. Pensamentos sem pé nem cabeça! Queria eu ser um tanto mais pé-no-chão...

Nem tudo o que existe um dia estreou

Escrever, assim como viver, não é preciso. Muito menos necessário. Mas às vezes, por descuido, palavras aparecem. Resolvi penalizar meus descuidos escrevendo um blog. Por que não? De penas e apenas serão feitas as postagens. Ou não. Isso é só um texto introdutório para fazer pensar que há mais mistérios entre os bits dessa página do que sonha nossa vaga cibernética. Não há. Mas faça bom proveito mesmo assim. Eu farei.