Os ombros de tantas blusas manchados pelas suas lágrimas. Noites em claro para pretenciosamente tentar conter sua dor com meu abraço, mesmo me conhecendo insuficiente. E um dia nos dissemos irmãos que se escolheram.
Um dia outro qualquer, meu celular pulsa com notícias suas depois de muito tempo. Depois de muitas costas viradas a mim. Lá estava, com a crueza das letras minúsculas, que roubam ao dito qualquer substância: amizade é conveniência. e convivência. só.
Chorei, é verdade. Mas seu ombro não estava lá para que eu pudesse manchá-lo. Havia outros, claro. O seu, não.
Pensei em chamá-lo ingrato, mas isso você nunca foi.
Pensei em chamá-lo injusto, mas tampouco isso se adequava.
Pensei então que era culpa minha, que a razão era sua.
Pedi perdão, desci do pedestal do orgulho. Você subiu um degrau mais.
Riu. Riu, dizendo que foi tolice, raiva passageira. Deu-me um abracinho displicente e um sorrisinho amarelo. Não os reconheci como seus. Acabei por aceitar.
Eu, sem explicações, sem desculpas, silenciei. Algo em mim morreu.
Não que pensasse ter sido falso o que vivi antes. Sei que não.
É só que... Perdoa-me a estupidez, mas amigos não são aqueles a quem damos o direito de ser inconvenientes?
Pode chamar de discordância de conceitos, amigo. Só sei que sinto falta da sua inconveniência.
Passarei a procurá-lo nos postos de gasolina.
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