quarta-feira, 28 de julho de 2010

Uma falta de monólogo nunca pronunciada

Um longo suspiro...

O olhar perdido, a não-voz beckettiana. Nada. Absolutamente nada. Nem mesmo o horror inexprimível! Vazio sem fim. Sem narrador, sem ouvinte, sem história. Nada. Nem mesmo o horror inexprimível. Nada de luz, mas sem trevas. Nada, realmente. Nem mesmo o horror inexprimível... Visão, nenhuma. Nada que faça sentido. Nonsense ausente. Nada. Nem mesmo o horror inexprimível? Impossível qualquer afirmação que se possa negar. Menos ainda do que o nada.

Um longo suspiro... Não! Nada! Nem mesmo o horror inexprimível? Nem mesmo o horror inexprimível... Nem mesmo o horror inexprimível. Nem mesmo o horror inexprimível!

Nem mesmo o horror, nem mesmo, nem o mesmo, nem nada!

Um último longo suspiro, vazio, agora. Só o tempo... Nem mais o tempo.

Nada. Nada até encontrar um porto... Não! Nada. Nada até o horror inexprimível. Alcança o horror! Agarra-se ao horror! Nada e se apega ao horror! Fica em silêncio... Olha em volta... Nada. Algo: o horror inexprimível. Antes o horror inexprimível do que o nada. Antes calar-se por falta de palavras possíveis de expressar o horror. Medo do nada! Medo de ser silenciado! Grita! Nada... O horror inexprimível se esvai...

Silêncio... Não! Nada! Nada que se possa dizer... Nada! Sem consciência, sem inconsciente ou o que quer que seja. Nada. Sem inexistência, sem nada. Nem mesmo o horror inexprimível.

Curto suspiro, mentiroso... Nada! Nem vida, nem morte, nem sobrevida. Coisa outra, não inexprimível... Apenas nada! Nem mais a palavra... Nem o direito ao fim... Nem suspensão de juízo. Nem fluxo verbal interrompido... Nada!




Suspirado em "A piece of monologue" e na existência de Beckett. Só porque às vezes dá vontade de resgatar textos da época de adolescência.

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