
Uns pés, no chão. Já no sábado, mal amanhecido, assim amanheceu. Pés sem dono, pés sem pernas, pés sem corpo, pés só pés. No caminho. Pé obstáculo. Pé empecilho. Pé apenas, a duras penas, penas pesadas, perenes. Pé ignorado, invisível. Pé pedinte, desejante. Pé vivamente morto, inertemente vívido, intensamente vivido. Pé pensante, questionador. Pé perigo, desconfortante, em denúncia. Em que pé está a situação, perguntam. Há quem responda que está no esquerdo. Eu digo que está nesses pés. Os pés não vistos. Olhados, mas não vistos. Como pode mentir assim o olho?! Todos olharam os pés, mas ninguém os viu. Todo pé tem rosto, feição, face. Um corpo inteiro, de fato, carne como a minha. Mas não! Eram só uns pés no chão... Dá-se-lhe as costas. Corpo hipócrita. Pensamentos sem pé nem cabeça! Queria eu ser um tanto mais pé-no-chão...
Muito bom Mariana! Tu tens habilidade com a escrita. Conseguiste descrever algo tão simples com belas palavras, acrescentando um tom poético à coisa. Gostei muito do blog :) Sucesso! Beijos
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